Rochedão e Espaguete batem um bolão na gastronomia da capital
Tim Maia e Rochinha foram alguns dos apelidos que José Maria recebeu quando tinha apenas seis anos de idade. Uma senhora que trabalhava na casa vizinha chegou a alertá-lo “não deixe que coloquem apelidos em você, porque isso pega”. Mas era tarde demais. Todos os coleguinhas do bairro Santa Tereza já tinham trocado o nome dele por Bolão. Naquela época, eles jamais poderiam imaginar que a referência dada ao menino gordinho seria o nome de um dos bares mais conhecidos da capital e o mais premiado como o Melhor Fim de Noite de BH.
Aos 12 anos, Bolão já trabalhava no bar adquirido com muita dificuldade pela família, no bairro Santa Tereza. O pai, Seu Rocha, já tinha feito “bicos” como pedreiro, carpinteiro, pintor e vendedor ambulante antes de conseguir montar o empreendimento. Com a ajuda da esposa, Dona Maria, muito habilidosa no preparo de deliciosos salgadinhos, o lugar ficou bem movimentado. Seis anos mais tarde, de olho no sucesso do inquilino, o dono do imóvel pediu o ponto de volta e ali manteve o mesmo negócio.
Em um novo local, em frente à Praça Duque de Caxias, o bar Rocha e Filhos tinha a missão de reconquistar a clientela. Depois de um tempo no novo bar, Bolão seguiu a sugestão de alguns clientes e incluiu o espaguete no cardápio. “Isso foi em 1970, eu tinha uns 22 anos e resolvi contratar a cozinheira de um bar que havia fechado e servia espaguete no bairro. Ela ficou só três meses, mas foi o suficiente para eu aprender a fazer o prato”, conta.
Bolão passou cerca de 10 anos preparando, ele mesmo, o espaguete, até que as irmãs assumiram a função na cozinha. O sucesso foi tão grande que o bar passou a ser conhecido como Bar do Bolão e o slogan criado por ele ficou na mente dos clientes: “o rei do espaguete”.
Além do espaguete, outro prato muito apreciado é o Rochedão, nada mais que um prato com arroz, feijão, batata, bife e ovo. “Não tem segredo nenhum a não ser o carinho no preparo. Eu acho que é justamente a simplicidade que faz a fama do Rochedão”, explica Bolão.
Decoração
Para saber um pouco da história do Bar do Bolão, basta olhar para as paredes do estabelecimento. Duas fotografias dos pioneiros do negócio, Seu Rocha e Dona Maria, ocupam a parte alta da parede atrás de um dos balcões.
Do outro lado, está afixada uma placa do Museu do Clube da Esquina, que marca o local como parte do acervo do Museu. A homenagem é pela fama e tradição do bar, que já foi considerado um reduto boêmio da capital, frequentado, desde os anos 70, por vários músicos. Logo acima dessa placa, estão penduradas as provas disso: discos de ouro das bandas Skank e Sepultura, presentes concedidos ao amigo Bolão. “Eles sempre frequentaram o bar, hoje é mais difícil por causa dos shows. Ainda assim, o Henrique (Skank) e o Paulo (Sepultura) continuam aparecendo por aqui de vez em quando”, revela. Lô Borges e Paulinho Pedra Azul são outros músicos fiéis ao espaguete do Bolão.
Além dos discos, tábuas de entalhe com o nome do bar e diversos prêmios de Melhor Fim de Noite de BH estão pregados nas paredes. Outro detalhe que chama a atenção é a quantidade de relógios. “Resolvi pregar o primeiro relógio, porque o pessoal chegava aqui três horas da manhã procurando comida e não tinha noção do quanto estava tarde. Depois coloquei outro, e outro... tenho, no total, 160 relógios, mas se todas as promessas que recebi de ser presenteado com um relógio novo fossem cumpridas, já teria mais de dois mil”, brinca.
Aberto 24 horas
Como a estratégia do relógio não deu certo e os clientes continuaram chegando nos mais diferentes horários, surgiu a ideia de deixar o bar funcionando 24 horas. “Se o freguês está na casa é porque está consumindo e é nosso interesse que ele fique. Com o tempo, começaram a chegar clientes em todos os horários, então, resolvemos deixar o bar sempre aberto”, explica.
Para manter o Bar do Bolão funcionando todos os dias sem parar, cerca de 80 funcionários se dividem em três turnos. A limpeza da cozinha e dos três ambientes é feita duas vezes por dia, mesmo com a presença de clientes. As portas se fecham apenas às 17h de domingo e são reabertas às 6h de segunda-feira. Fora esses dias, só mesmo nos feriados de Natal, Ano-Novo e Paixão de Cristo o bar é visto de portas fechadas.
Santa Tereza
Considerado um dos mais famosos redutos da boemia belo-horizontina, o bairro Santa Tereza tem um lugar especial no coração do Bolão. E parece ser um sentimento recíproco, levando em conta a quantidade de moradores que passam no bar só para cumprimentar o simpático comerciante.
Foi ele o responsável por atrair, para um cantinho da praça, as pombas e rolinhas em busca de alimento. A comidinha é jogada todos os dias e compõe o cenário que ele mais aprecia. “A praça, os pássaros, a igreja. Não preciso de mais nada. Eu fui criado aqui e só saio depois de morrer. Até costumo falar que não nasci em BH, e sim no Santa Tereza. Juro que já tem uns 20 anos que não vou ao centro da cidade. Tudo que preciso tenho aqui mesmo”.
A paixão pelo bairro deixa óbvio o roteiro turístico mais indicado por Bolão. “Quem vem a BH tem que conhecer o Santa Tereza, um dos bairros mais antigos da cidade que, além de preservar a história, é muito agradável. Já a dica gastronômica é apreciar um dos pratos que como todos os dias: espaguete ou Rochedão”.
Novo espaço
A história de mais de 40 anos da família Rocha não foi suficiente para manter o Bar do Bolão no mesmo local. O imóvel, alugado durante todo esse tempo, será vendido e o estabelecimento vai funcionar em dois novos espaços, para permanecer ao redor da Praça Duque de Caxias. A mudança deve ser feita ainda este ano.
Atualmente, o bar conta com 1.200 m² e o primeiro ponto adquirido pela família, poucos metros à frente, tem apenas 500 m². Por essa razão, eles vão abrir um segundo estabelecimento, provavelmente do outro lado da Praça, para conseguir atender ao mesmo volume de clientes. “Pode ser que isso faça o movimento diminuir durante a madrugada, mas não vai atrapalhar, porque o público que frequenta nosso bar é fiel. Não é porque tem uma praça para atravessar que ele vai deixar de nos prestigiar”, afirma o comerciante com otimismo.
Telefone: 31 3245-1569
Horário de Funcionamento: 2ª a 6ª a partir das 17h - Sáb. e Dom. das 10 às 20h.










