O poeta roqueiro Marcelo Dolabela

Ele fez parte da geração que lutou contra a ditadura, levando em punho poesia, música, arte e cinema

A poesia estava no DNA do mineiro de Lajinha. Os poetas que lhe inspiraram estiveram sempre dentro de casa: o pai e o irmão. Com tamanha influência, a paixão pelos versos foi despertada ainda na infância.

Na quinta série, por volta dos 12 anos de idade, a música veio complementar a veia artística. Nessa época, fez amizade com dois amigos que tocavam violão e bateria. O instrumento de Marcelo era diferente: as palavras elaboradas nos poemas que viravam composições. Juntos, eles se apresentavam sempre nas redondezas da cidade natal. Foi nesse convívio, sempre íntimo com o rock e a poesia, que o jovem Marcelo Dolabela chegou em BH, na década de 70, e começou a deixar sua marca na cena cultural da capital mineira.

Mas a história quase tomou um rumo diferente. Marcelo chegou aqui com a intenção de se tornar médico veterinário. Cursou alguns semestres até entender que o lugar dele era na Faculdade de Letras. Estudou e fez pós-graduação na UFMG. “Naquela época, poesia era coisa de gente da Letras. Hoje em dia, não. A poesia está em muitos outros cursos de graduação”, especula.  

A mudança nos estudos e a aproximação com a poesia veio a calhar no contexto da Belo Horizonte dos anos 70. Na época, a capital mineira fervilhava com tudo que Marcelo sempre procurava no interior: desde os discos de rock, que, antes, só chegavam até ele por meio das encomendas feitas ao motorista de ônibus, até o movimento que unia música, cinema, poesia e literatura na cidade. “Alguns amigos e eu começamos a fazer recitais, poesias, rap. Íamos para a Praça Sete, realizávamos alguns eventos inesperados, declamávamos no meio do povo. A Igreja São José sempre foi cenário para mostrarmos nossas poesias”, relembra.

Poeta, poesia e poemas

O tempo passou e os versos assumiram um lugar privilegiado na vida de Marcelo. Ao longo dos anos dedicados à poesia, ele publicou mais de 30 livros. Os primeiros eram impressos ainda em mimeógrafos. Dolabela escrevia numa folha de estêncil, utilizando uma máquina de escrever, depois, fazia as cópias no antigo aparelho e recortava folha por folha. “Hoje, é muito mais fácil produzir e imprimir um livro. Antigamente, era mais caro e havia menos recursos”, compara.

Para ele, a produção poética daquela época [início da década de 80] pode ser classificada como “poesia marginal”. “O poeta era mais um artista pop que um poeta careta. Demos outra cara para a poesia. Falávamos de drogas, sexo, falávamos de juventude para a juventude. Hoje é normal ver jovens na poesia, mas naquela época era diferente”, argumenta.

Entre as obras que mais marcaram a carreira de Dolabela, está o livro Coração Malasartes, publicado em 1980. “Foram dois meses de produção, não apenas juntei os poemas, houve uma preocupação com a construção da ideia geral do livro. Quando assustei, ele estava sendo citado no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília. Esse não foi o mais bem produzido de todos que publiquei, mas foi, sem dúvida, o que teve a maior repercussão”, constata. A tiragem da publicação chegou a cinco mil unidades, numa época em que poetas consagrados como Roberto Drummond publicavam, no máximo, três mil. Muitos dos poemas desse livro já foram republicados por mais de 200 vezes.

O Rock na vida de Dolabela

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Poesia Objeto

Dentro das inúmeras possibilidades de se fazer poesia, os objetos sempre acompanharam o fazer criativo de Marcelo Dolabela. A HaiCaixa é um dos mais conhecidos. Numa caixinha semelhante à embalagem de fósforos, o autor disponibiliza recortes com versos de poemas. “Eu transformo o objeto com uma construção poética, mas quem pega o material pode usar a criatividade e dar uma nova sequência à poesia”, explica.

O poeta também já fez uma pequena mala recheada de poemas, a Palavra Malise. Em outra oportunidade, criou um objeto a partir de um pote de margarina. Dentro dele, Dolabela colocou dez objetos que lembram o homem e dez objetos que lembram a mulher. Debaixo de algumas pedrinhas colocou os poemas. O interessante é que ele jogou sal no objeto: “é que o sal fez tudo durar apenas um mês, ele corroeu o papel, justamente para mostrar que os relacionamentos não são para sempre, eles acabam”, justifica.

Entre as próximas novidades, estão uma caixinha de metal que chamará Heavy Letal e um jogo de café em que há poemas escritos nas xícaras, e no pires, tanto no fundo, quanto na borda. Quase um livro pronto para a leitura durante o cafezinho. 


Maletta

Desde a época da adolescência, Marcelo Dolabela ficou muito conhecido por frequentar um dos edifícios mais tradicionais de Belo Horizonte: o Arcângelo Maletta (link). Ele gosta tanto do local, que até fez um poema em homenagem.

Maletta revisited #86

eu estou: nas maravilhas do mundo
no Coliseu da cidade
no naufrágio dos pobres
ouvindo Scheherazade

é o zunzum da matilha do mundo
da Muralha da China, o barulho,
a baunilha dos vagabundos

única geração que ouve
a triste balada dos mouros
o transplante das décadas
a arcádia sem fé e sem ouro. 


A ditadura e Dolabela

A ditadura fez parte da juventude de Marcelo Dolabela. Ele participou de muitas greves e passeatas do movimento estudantil da época. Foi nesse ambiente que surgiu o grupo CemFlores, reunindo cerca de 120 pessoas interessadas basicamente em poesia. “Atores, artistas plásticos, pessoas ligadas ao cinema e à música, e até mesmo padres e freiras, aderiram ao movimento”, conta Marcelo. Os espaços utilizados para os encontros eram o DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFMG, onde hoje funciona a Escola de Belas Artes, e o DCE da PUC (Pontífica Universidade Católica), localizada na avenida Getúlio Vargas.

As forças que enfrentavam a ditadura eram constantemente perseguidas e, em diversas ocasiões, grupos foram presos por vender livros, participar de greves, etc. “Lembro que uma vez fui preso com cerca de 400 pessoas porque nos reunimos para tentar restaurar a UNE (União Nacional Estudantil), o que era proibido. Passamos dois dias dentro de um galpão próximo ao bairro Gameleira. Mas sempre tínhamos um advogado de plantão no DCE”, detalha.

Com a queda da ditadura nos anos 80, a geração de Dolabela se viu diante de um novo golpe: a cocaína e a AIDS. “Antes, havia um mundo com mais liberdade em relação à sexualidade. Tivemos que reaprender a viver num mundo que não era mais o mundo romântico dos anos 70. Foi o fim do mundo gregário”, define. 

 Marcelo Dolabela foi um dos integrantes da banda Sexo Explícito, que teve John Ulhoa [atual Pato Fu] entre os músicos. Depois, formou o grupo Divergência Socialista, com o qual ainda se apresenta. Por esse motivo, Dolabela se define como “um poeta que sempre escreveu para as bandas de rock”.

Em 1987, publicou o livro ABZ do Rock Brasileiro, obra considerada clássica entre os apreciadores do estilo. Além disso, também foi produtor e apresentador do programa Rock Molotov, levado ao ar pela Rádio Liberdade de 1988 a 1991.

Para ele, o rock belo-horizontino apresenta características peculiares. Enquanto em outros Estados a maior parte das bandas foi formada por filhos rebeldes, em Minas os roqueiros estudam, frequentam escola, são casados. Em grupos, como Pato Fu e Skank, praticamente todos os integrantes possuem formação superior. “Você pode falar que São Paulo tem roqueiros de famílias mais ricas, não mais cultas. O rock do Rio de Janeiro pode ser o mais rebelde, mas não tem tanta base e fundamento quanto o rock de Minas. O belo-horizontino é mais cuidadoso no fazer musical e tem um lugar na cultura que não existe em lugar nenhum no país”, define.

Perfil
Nome completo:Marcelo Gomes Dolabela

Data de Nascimento:17 de setembro de 1957
Formação:pós-graduado em Letras pela UFMG e mestre em Comunicação Social pela Universidade São Marcos (SP).

Destaques:
- Autor do texto do curta-metragem Uakti - oficina instrumental, premiado como Melhor Curta e Melhor Montagem, no Festival de Gramado de 1987.

- Co-editor da revista Fahrenheit 451 e da equipe de articulistas da revista Fanzine Gass. Atualmente é co-editor do jornal Dezfaces.
- Integrante dos grupos musicais: Divergência Socialista, Red Theremin e Caveira My Friend.
- Colunista semanal do jornal Hoje Em Dia, desde novembro de 1999.
- Produtor e apresentador do programa Rock Molotov, levado ao ar pela Rádio Liberdade FM, de Belo Horizonte (1988-1991).
- Coordenador de diversos festivais nacionais e internacionais de poesia e literatura em Minas Gerais.
- Possui cerca de 50 publicações, entre livros, livretos e poesia objeto.

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A poesia em BH já começa no nome da capital que, segundo Dolabela, possui as duas figuras de linguagem mais importantes dos recursos poéticos: a metáfora (belo) e metonímia (horizonte). Para ele, o cenário da poesia em BH é fantástico.Clique aqui para ler mais sobre.

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“O ensino melhorou muito, hoje vemos crianças de sete anos fazendo recitais, sendo incentivadas, lendo, participando de festivais. Daqui pra frente, isso só deve aumentar”, especula.

Parte dessa crescente está ligada também ao conteúdo cultural que a capital mineira produz. Dolabela acredita que o poema é apenas um instrumento da poesia. Muitas vezes, grupos de dança, grafite, música e moda podem ter mais poesia que a própria escrita. “Culinária é a técnica, feijoada é o produto. Mas culinária não é só feijoada. Poesia é assim também. Pode ser uma música, um poema, um teatro, uma colagem, uma mostra fotográfica, etc.”, exemplifica. 

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