Gilberto e Rafael: arte é o outro sobrenome da família Abreu
Rua Bastos, bairro Glória, região Noroeste de Belo Horizonte. Estacionado no meio-fio, um Passat antigo chama a atenção pelas cores vibrantes e pelos desenhos na lataria. Uma imensa flor pintada no capô e a Igrejinha da Pampulha grafitada na lateral compõem a obra-prima sobre quatro rodas (e pneus furados). Olhar o veículo parado em frente a uma certa casa desperta um pensamento comum em quem passa pelo local: naquele imóvel, com certeza, não mora uma família como outra qualquer.
Pura verdade. Na casa de Gilberto e Rafael, o tom criativo está espalhado por todos os cômodos: um sofá colorido na sala, pintado por eles, quadros pendurados em quase todas as paredes dos três andares, um carrinho de supermercado que serve de porta LPs, um ateliê no terraço. Tubos de tintas, pincéis, telas em branco e arte, muita arte, por todos os lados. É dali que nascem as criações de duas gerações dos artistas plásticos que contribuem para enriquecer a cena cultural de Belo Horizonte: Gilberto de Abreu, o pai, e Rafael Abreu, o filho.
Gilberto já se tornou patrimônio do meio artístico da capital mineira. Possui um vasto portfólio criativo, que começa na poesia, passa pela cenografia, pelo desenho em quadrinhos, pelo teatro, pelo cinema, pela música e chega à pintura, carro-chefe do artista. “Minhas primeiras impressões artísticas são da infância. Aos oito anos de idade, já gostava de desenhar no chão do campinho de futebol. Ali, percebi minha facilidade para a arte. Isso começou a virar uma espécie de rotina e nunca mais parei”, conta.
Ao longo de sua carreira como artista plástico, Gilberto também confeccionou cenários, fez ilustrações para capas de discos, dirigiu cena e até atuou como iluminador nos shows de artistas renomados, como Lô Borges, Toninho Horta, Ângela Maria, Paulinho Pedra Azul. Além disso, lançou livros e um CD de poesias, participou dos longas-metragens “Dança dos Bonecos”, de Helvécio Ratton, e “Um filme 100% brasileiro”, de José Sette de Barros, apresentando obras de arte. Segundo Gilberto, todas essas experiências o definem. “Sou um ser humano inquieto, como todo bom artista deve ser. Não consigo ficar parado. Sempre estou procurando algo para fazer”.
A capacidade de dialogar com diversas modalidades criativas sempre impressionou fãs e companheiros de trabalho. Uma frase do músico Lô Borges, ex-Clube da Esquina, ilustra o blog de Gilberto e exemplifica bem essa admiração pelo trabalho do artista plástico natural de Espinosa e belo-horizontino de coração. “O Beto traz, para perto da gente, a ligação do sonho com o real. Liga o consciente ao inconsciente como quem abre uma janela e deixa entrar o sol”.
Quando conversam, Rafael e Gilberto de Abreu nem parecem pai e filho. São como dois amigos batendo papo. A cumplicidade não existe apenas na relação afetuosa, mas também na vida profissional.
“Ele tem a manha. Ele sabe fazer”. Assim Gilberto resume, um pouco tímido, o trabalho do filho. Sem se esquecer do dever educativo e incentivador de um pai, ele ainda recomenda: “Eu sempre digo ao Rafael: Tem que pintar, tem que trabalhar. O ócio é lindo, mas o trabalho é necessário”.
Em 1976, Gilberto de Abreu pintou uma aquarela comemorando o nascimento do primogênito Rafael. Ele define a obra,“José Rafael, o guerrilheiro do chapéu flutuante”, como uma das mais importantes.
Por sua vez, Rafael se derrete em elogios para Gil (como ele se refere ao pai) e o classifica como “uma referência”. “O Gil sempre fez arte, trabalhou somente com atividades ligadas à arte. Admiro-o pela dedicação ao trabalho e pela pesquisa dentro desse universo. Sou fã da pureza que o trabalho dele alcança”, elogia. (Quadro “José Rafael, o guerrilheiro do chapéu flutuante”- Foto: Reprodução)
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Gilberto por Rafael. Rafael por Gilberto

Bate-bola com os dois artistas plásticos
Gilberto de Abreu: Eu trago um mundo inteiro dentro do meu olho: leio livros, vejo filmes e me sensibilizo com muitas coisas. O artista pensa o mundo de uma forma que salta quando encontra outros de mesma sintonia. Minhas primeiras impressões artísticas são da infância e nunca mais me afastei dela. A pintura é meu carro-chefe e as outras artes reciclam minha pintura. Nunca vou deixar de pintar pelo menos um quadrinho.
Rafael Abreu: Arte é criar algo novo, expressando meu olhar. Viver de arte é ver melhor o mundo, ver a vida de uma forma melhor. Até a comida se torna mais prazerosa.
Gilberto de Abreu: Quero mostrar vida. Na minha opinião, quando o quadro está vivo, está bom. Agora, o que a vida significa? Isso é muito pessoal, cada um tem uma definição.
Rafael Abreu: Eu quero mostrar sentimento, educar, conversar. Não quero reproduzir, não quero ser mecânico. Eu tento buscar o novo.
Gilberto de Abreu: Quando eu vim para BH, fui morar próximo ao centro. Então, o quintal da nossa casa era a própria cidade. Até hoje, eu gosto do Centro, gosto de andar por ali, vendo as pessoas passar. A Pampulha também é linda. Não basta falar, é preciso sentir, andar por lá. Eu também gosto de ver a cidade, à noite, de um ponto mais alto, gosto de passear por BH de madrugada.
Rafael Abreu: As galerias de BH são bacanas. Adoro passear pela Savassi e entorno. Gosto dos barzinhos, do Mercado Central. O Palácio das Artes também é um ponto imperdível.
“Filho de peixe, peixinho é”. Rafael Abreu fez jus ao ditado e se deixou contagiar pelo intenso envolvimento do pai com o mundo da arte. “Tudo começou como uma brincadeira que se tornou uma coisa séria. Estive sempre presente em eventos do meu pai e isso marcou minha formação artística. Hoje me sinto muito rico com essa herança”, afirma.
A mãe de Rafael também teve um papel fundamental. Mirian Rodrigues, que morreu em 1994, trabalhava com artes plásticas ligadas à moda e ao artesanato. Ela vendia camisetas estampadas na Feira Hippie, na época em que a feira ainda funcionava na Praça da Liberdade. “Pintava camisetas com minha mãe. Vendo meu trabalho, meu pai achou minha arte bacana e decidiu me presentear com uma tela e algumas tintas”, relembra Rafael.
Além do incentivo com as ferramentas de trabalho, Gilberto também foi o responsável pelo ingresso profissional do filho no mundo das artes plásticas. Quando Rafael tinha 16 anos, Gilberto o convidou para integrar a equipe do espetáculo “Laços y Pinturas”, no qual ele realizava performances, teatro de sombras e pinturas ao vivo. “Só fiz esse convite porque notava um certo interesse do meu filho. Já aos oito, nove anos de idade, ele brincava com luzes e sombras nos bastidores dos eventos”, relembra o pai. O empurrãozinho que faltava para Rafael foi a continuação da tradição que permeia a família Abreu.
BH em pinceladas
Das pinturas em camisas, passando pelos espetáculos em parceria com o pai, foram muitos anos de aperfeiçoamento de Rafael Abreu. Segundo ele, todas essas experiências serviram para a evolução artística e pessoal dele. “Hoje, defino a arte como uma forma de viver melhor para o mundo e para mim mesmo”.
Um dos trabalhos mais marcantes de Rafael é o projeto “Memória da Cidade”, que transporta para as telas famosas construções do arquiteto italiano Raffaello Berti, espalhadas por Belo Horizonte. “Os edifícios são livros de concreto e contam histórias. Essa memória arquitetônica invade minha vida, está presente no meu cotidiano de belo-horizontino. Por isso, decidi trazer um olhar diferente sobre os prédios”, revela o artista plástico.
Vários edifícios projetados por Berti, que foi um dos fundadores da Escola de Arquitetura da UFMG, viraram protagonistas das telas de Rafael Abreu: a Prefeitura Municipal, a Santa Casa, o Museu Inimá de Paula, o Minas Tênis Clube, o Hospital Felício Rocho, o Colégio Marconi, o Hotel Itatiaia, o Hotel Metrópole, a Igreja São Francisco das Chagas e o extinto Cine Metrópole. Para Rafael, essa exposição é importante, porque retrata o que é a cidade. “A cidade somos nós. A história é nossa memória. Não podemos nos esquecer disso”.
Em 1997, outra exposição de Rafael Abreu já havia homenageado Belo Horizonte. Na época, a capital completava 100 anos de fundação. Como parte das comemorações, o artista retratou o Viaduto Santa Tereza, a Igreja da Pampulha e a Praça da Liberdade nas telas. “Para mim, observar a cidade é senti-la com um olhar mais carinhoso”.
Arte hereditária
A veia artística parece realmente estar no gene da família Abreu. Os caçulas de Gilberto, os gêmeos Lis e Tito, ainda são crianças, mas fazem do ateliê da casa o lugar preferido para as horas de lazer. “Imagine uma criança crescer em num ateliê. É um universo de informações. Vejo muito isso com meus irmãos: o crescer deles, dentro de um ateliê, está sendo realizado cheio de descobertas”, acredita Rafael.
Na parede do terraço da casa, os gêmeos adoram deixar suas pinceladas. Tito usa a imaginação aguçada para construir os próprios brinquedos, utilizando pedaços de madeira do ateliê do pai.
Considerando a veia artística dos Abreu, não é muito difícil imaginar os próximos capítulos dessa história. A tradição criativa da família parece estar ainda muito longe de encontrar um ponto final.










