Um carioca apaixonado pela cozinha de Minas
Ele talvez seja o carioca mais mineiro de Belo Horizonte. Já viveu em Florianópolis, Brasília, São Paulo e Londres, mas foi a capital de Minas que conquistou o idealizador do festival Comida di Buteco. Ele frequenta restaurantes de vários pontos do planeta, experimentando os mais diversos pratos e desvendando um universo de sabores. Tudo que sabe, compartilha com os alunos do Centro Culinário, criado por ele, instalado na Savassi. Ele é Eduardo Maya, um dos mais respeitados pesquisadores da gastronomia no Brasil.
Nascido em 1957, Eduardo ainda era bebê quando começou a participar das mudanças de cidade que a família fazia em função do trabalho do pai, que era bancário. Quando atingiu a adolescência, já havia morado em três estados diferentes e foi para a capital da Inglaterra, onde sua história começou a mudar. Com os pais vivendo em Amsterdã, a permanência em Londres, com o irmão, fez despertar a paixão pela gastronomia. “Eu sempre comi muito bem, lá em casa, sempre tivemos esse costume e na Inglaterra é comum receber amigos em casa para cozinhar. Lá, abre-se um vinho e todos se reúnem na cozinha para preparar a refeição. Eu tinha apenas 17 anos e já preparava um belo cordeiro no fim de semana”, relembra.
A partir daquela época, o relacionamento de Maya com a gastronomia passou a ser mais íntimo. Mas outros projetos surgiram e, para manter a ajuda financeira que o pai lhe enviava, foi obrigado a fazer um curso superior. Optou por matemática por ser a primeira alternativa que lhe veio à mente.
Anos mais tarde, se valeu da boa pronúncia do inglês para conquistar uma concorrida vaga em um concurso da Petrobras. Passou em 8° lugar entre os 1.500 candidatos. Na função de hedge financeiro, era responsável pela proteção das transações cambiais da empresa brasileira entre diversos países. Aos 23 anos, ganhava muito bem e tinha um emprego estável. Mas surpreendeu os colegas ao pedir demissão e procurar novos horizontes. E foi assim que conheceu um belo horizonte.
Eduardo Maya chegou à capital mineira por meio de uma namorada que era daqui. O encanto foi imediato. “As pessoas, o lugar, a forma simples de se relacionar, enfim, a cidade me conquistou e eu decidi abrir uma fábrica de roupas aqui”, relembra. Como ghost designer, o empresário viajava para a Europa e os EUA e trazia de lá os modelos que eram replicados no Brasil. As peças eram vendidas para grifes famosas e tinham boa aceitação no mercado.
Paralelo ao trabalho, ele continuava frequentando restaurantes e apreciando os mais variados cardápios. Aos 37 anos, resolveu assumir definitivamente um compromisso com a atividade que mais gostava. Mais uma grande mudança na trajetória profissional de Eduardo. Dessa vez, um passo largo rumo ao grande sonho: trabalhar com gastronomia.
Centro Culinário e Rádio Geraes
Grande parte da experiência gastronômica de Eduardo se deve aos anos de dedicação ao tema. Conhecimento que foi aprofundado quando recebeu o convite para falar diariamente sobre o assunto na extinta Rádio Geraes. “Naquela época, não havia tanta oferta de informações sobre gastronomia como se tem hoje, por isso, tive que pesquisar bastante, ler muito, assistir e gravar diversos programas, além de continuar o que sempre fazia: ir aos lugares, experimentar e cozinhar. Por exemplo, se em determinado programa o assunto era cebola, eu falava sobre a história da cebola, de onde vinha, etc. Tinha assunto para todos os dias”, explica.
Mesmo sendo inegavelmente um autodidata, Eduardo Maya traz no currículo o diploma de catering da Cordon Bleu, adquirido no Canadá. Para canalizar tanto conhecimento sobre a gastronomia, além do programa na rádio, ele criou o Centro Culinário. No espaço é oferecido um curso, dividido em vários módulos, que vai da culinária básica à cozinha contemporânea. Geralmente, são dez aulas com turmas de até 14 alunos. Além das aulas teóricas, os alunos participam de um jantar com no mínimo três pratos, preparados por eles juntamente com o chef. “Eu tenho alunos que se tornaram grandes chefs e muitos ainda continuam comigo. Alguns estão no curso há mais de dez anos. Muitos continuam estudando, porque sempre trago novidades quando volto das viagens. Por isso, nem tenho vagas, só se alguém desistir é que um novo aluno poderá participar das aulas”, ressalta.
O que os alunos buscam nas instruções do professor Eduardo não está nos livros de gastronomia. Nas aulas, o chef faz um relato detalhado de quem esteve nos locais onde os pratos são preparados e conhece de perto o contexto culinário do lugar. É que o gastrônomo visita restaurantes do mundo inteiro e pesquisa de perto cada cardápio. “Tento absorver o máximo de conhecimento sobre o prato, o restaurante, o local, as novidades e levo isso tudo para o Centro Culinário. Hoje, por exemplo, vamos falar de Orleans (EUA) e eu já estive lá, sei como é, conheço o sabor, a região. É mais que livros, mais que pesquisa em internet, eu não vou falar bobeira aqui, porque tenho essa base. E, por causa disso, tenho alunos que são chefs e donos de restaurantes”, argumenta Maya.
Os custos com as viagens e as visitas aos restaurantes, mundo afora, são considerados importantes investimentos para o gastrônomo. “Eu sempre levo um bloquinho de anotações comigo. Ele fica do lado do meu prato. Vou escrevendo todas as informações que considero relevantes não só para o Centro Culinário, mas para minha fonte de conhecimento mesmo”, revela. Entre as últimas viagens, destaca a visita ao restaurante que é considerado o melhor do mundo pela revista Restaurant, o Noma, na Dinamarca.
Comida di Buteco
Com a extinção da rádio, Eduardo se voltou integralmente para a produção do Comida di Buteco que, hoje, é realizado em 15 cidades brasileiras. “O festival ajudou a trazer um novo contexto para os botecos, principalmente os de Belo Horizonte. As pessoas daqui não vão ao bar simplesmente para beber, elas vão para comer. E comer bem”, destaca.
Atualmente, Eduardo divide o trabalho entre o Festival e o Centro Culinário, além de projetos em parceria com a multinacional Nestlé e com alguns chefs mineiros. “O meu xodó é o Conspiração Gastronômica, movimento comandado por mim e por mais dois amigos, Eduardo Avelar e Ralph Justino. Infelizmente, não tenho dedicado muito tempo. Consiste basicamente no mapeamento de seis regiões de Minas, levando em consideração os produtos encontrados em cada uma delas. O objetivo é incluir esses produtos na cozinha local, valorizando a exclusividade dos pratos daquela região”, explica.
Clique aqui para conhecer um pouco mais sobre o festival Comida di Buteco.











