Cris do Morro: “A arte me livrou da guerra”
Ao entrar no Morro do Papagaio, convencido a matar o autor do tiro que acertou seu irmão numa guerra de gangues, mas dedilhando uma canção, um garotinho lhe pediu para ensiná-lo a tocar. O comovente pedido amoleceu seu coração e o convenceu de que seu lugar era na arte e não na guerra. Essa é uma das histórias que aconteceram na vida do garoto pobre Cristiano da Silva, o Cris do Morro, que, desde criança, sempre trabalhou para transformar a dura realidade em algo positivo para a comunidade por meio de projetos sociais.
Cris mora na comunidade desde os cinco anos. Ainda aos oito anos, compôs a primeira canção. Aos dez, já organizava eventos, como as partidas de futebol entre a “rua de baixo” e a “rua de cima”. Como tinha mais vinis que a grande parte dos promotores de festas do Morro, sempre virava, por acaso, o DJ dos eventos do Morro do Papagaio. Daí, até mergulhar de cabeça na carreira musical, foi um passo. “Quando eu dei por mim, já estava colocando as minhas músicas na rua”, relembra.
Cantando e sempre se mantendo ativo, o garoto cresceu e começou a pensar em iniciativas que valorizassem e promovessem a arte da periferia e, ao mesmo tempo, aumentassem a autoestima da comunidade.
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Saiba mais sobre o Morro do Papagaio
O Morro do Papagaio é oficialmente um bairro, localizado à beira da Avenida Nossa Senhora do Carmo, e abrange três comunidades: Vila Barragem Santa Lúcia, Vila Santa Rita de Cássia e Vila Estrela.
A versão mais defendida diz que o nome da localidade surgiu em função da presença de muitas crianças que soltavam pipas (papagaios) no local.
A ocupação teve início no século 19. Em 1889, foi criado o Núcleo Agrícola Afonso Pena, que abrangia os bairros Belvedere, Cidade Jardim, Coração de Jesus, Luxemburgo, Morro do Papagaio, Santa Lúcia, São Bento e Vila Paris. A ocupação se intensificou a partir dos anos 50. (Fonte: Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte)
Cris, então, começou a alimentar essa ideia. Em outro episódio, quando um policial arrancou o violão de suas mãos e quebrou o instrumento, em vez de ficar indignado, ele decidiu criar a Associação dos Artistas do Morro do Papagaio. Assim, nasceu a entidade que leva para a favela atividades culturais, discussões sociais e oficinas e, além disso, valoriza os artistas locais.
Casado, pai de três filhos, nascido em 12 de novembro de 1973 e à frente de inúmeros trabalhos de cunho artístico e social, Cris mudou a sua história e deu outra cara à comunidade onde cresceu, o Morro do Papagaio, na região centro-sul de BH. Depois do sucesso de seus projetos, não é exagero dizer que a visão da sociedade em relação à favela e desta em relação a si mesma tem melhorado na cidade de Belo Horizonte.
No lugar do tiro, um disco
Cris é um sobrevivente da guerra urbana gerada pelo comércio de drogas. “Cresci vendo vários amigos, que nunca queriam ser o ladrão [na brincadeira polícia x ladrão], caírem no crime. Meu irmão foi parar no hospital depois de levar um tiro no morro, em uma guerra de gangues. Além
Apesar de viver num ambiente propício ao crime, ele não se corrompeu. Cris atribui uma atitude da sua mãe, criticada por muitos, como o principal fator que contribuiu para afastá-lo da criminalidade. “Sempre que morria uma pessoa na favela, minha mãe nos levava para ver o cadáver baleado e dizia que a causa havia sido a droga. Eu levava um choque. Isso me deu um medo tão grande que eu me afastei desse mundo. Sei que muita gente não acredita, mas com 37 anos, nunca coloquei nem um cigarro na boca, mesmo morando no Morro”, orgulha-se.
Longe da guerra, Cris se voltou para a música e a cultura. Foi um dos componentes da banda Enigma Black, que começou com o rap e depois migrou para o samba-rock e a black music. Em 2000, lançaram o primeiro CD, “O Som da Periferia”, pela gravadora Paradox. Em 2004, veio o segundo disco, “Cris do Morro a Caminho”. Hoje, o artista segue carreira solo cantando música gospel, ao estilo black music.
Paixão pela favela
Cris aprendeu a enxergar a beleza da favela. O brilho nos olhos e a paixão com a qual fala de sua comunidade provam que seu discurso não é só da boca para fora. Hoje, ele mora no Morro do Papagaio não por falta de opção, mas por gostar e acreditar naquele local. “Não adianta nada eu falar que amo a favela e não estar lá. Eu amo o morro e não quero morar em prédio. As pessoas não nos aceitam pela nossa roupa, pelo cabelo, por residir em mansão, e sim por aquilo que a gente acredita”.
Para Cris, o morador de favelas e aglomerados precisa valorizar o seu lugar de origem. E o primeiro passo é mudar o vocabulário. “A expressão comunidade carente é preconceituosa. Acredito em comunidade em avanço. A partir do momento que vejo a mãe acordar cedo, deixar seu filho na creche ou escola e ir para o trabalho, ela já está avançando, pensando na frente. Ela não está em casa deitada, carente”, argumenta.
O músico confessa que até hoje sofre preconceito, mas vence com muito trabalho e fé em Deus. Para quem é contra ou prefere manter distância das favelas, ele deixa o recado: “eu ouço muito as pessoas falarem que é preciso verticalizar a favela. Mas, não é necessário acabar com o morro e sim escutar o que as pessoas de lá têm a dizer. Não há razão para ter medo da favela. Nós somos um povo que acredita demais na nossa comunidade. E, por acreditar na nossa cidade, vamos viver e vamos morrer nela”.
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Projetos
Além de criar a Associação dos Artistas do Morro do Papagaio, Cris também colabora com vários projetos de cunho sócio-cultural. Iniciado em 1999, o Favela Bela, renova o morro colorindo as fachadas... Clique aqui para ler mais sobre.
Projetos
Além de criar a Associação dos Artistas do Morro do Papagaio, Cris também colabora com vários projetos de cunho sócio-cultural. Iniciado em 1999, o Favela Bela, renova o morro colorindo as fachadas das casas. Com o apoio de empresários, que doavam o material para a pintura, os moradores podem realizar o sonho de ter suas residências pintadas com cores vivas, como verde-limão, azul-celeste, roxo, rosa-choque, etc. A ação conquistou o Prêmio Gentileza Urbana, em 2003.
O Carnafavela, evento idealizado por Cris, já faz parte do calendário oficial da cidade.Além de desfiles de blocos na comunidade, a programação inclui shows e ações sociais, entre elas, a participação da Defensoria Pública que, na edição de 2008, instalou uma central de atendimento no local da festa.
Com o Só Quero Ver o Meu Morro Feliz, também de autoria do líder comunitário, os moradores ganham todos os anos um dia inteiramente dedicado à ação social, com emissão de carteira de identidade, com orientações sobre higiene, saúde, cidadania e apresentações musicais. Artistas como Wilson Sideral e Tianastácia já participaram do evento.
A proatividade e capacidade de mobilização de Cris do Morro, chamam a atenção do poder público. Desde 2007, a convite do ex-governador Aécio Neves, ele trabalha no Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) coordenando o projeto Vozes do Morro. A iniciativa tem como objetivo divulgar a música feita pormoradores de vilas, favelas e aglomerados de Belo Horizonte, Ibirité, Ribeirão das Neves e Santa Luzia.
Cris acredita que o trabalho em grupo é o segredo do sucesso das ações sociais das quais participa. “Os projetos dão certo, porque não são feitos por mim, são feitos comigo. Tem muita gente que participa e faz as coisas mudarem”.










