Na dança afro, o ritmo que valoriza o negro

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Com dança, música e atitudes que exaltam a cultura negra, o grupo Aruê das Gerais resgata a tradição afro-brasileira em Belo Horizonte

Grupo Aruê das Gerais, com trajes de show (Foto: Divulgação)
Grupo Aruê das Gerais, com trajes de show (Foto: Divulgação)
Vem desde o tempo da senzala / Do batuque e da cabala / O som que a todo povo embala / E quanto mais o chicote estala / E o povo se encurrala / O som mais forte se propala (Brasil Mestiço Santuário Da FéClara Nunes)

Sol, luz, brilho. O significado do primeiro vocábulo do nome reflete bem a missão do grupo belo-horizontino Aruê das Gerais: resgatar as origens afro-brasileiras e fazer resplandecer a diversidade da cultura negra. Para isso, dança, música e percussão são os principais instrumentos utilizados pelo grupo,fundado em 1985, no conjunto Mariano de Abreu, região leste da capital.

Tudo começou quando a fundadora do Aruê, Rosângela Goulart, tinha apenas 11 anos. Em uma escola do bairro Casa Branca, ela se interessou pelas aulas de uma professora que ensinava passos afro-brasileiros. Rô, como também é conhecida, decidiu aprender, mesmo sem saber o que aquela coreografia representava. “Só fui descobrir o que era dança afro aos 18 anos”, revela.

Já adulta e cada vez mais interessada pela tradição afro-brasileira, Rosângela decidiu ingressar no grupo Quilombo das Gerais, que possuía uma filosofia muito similar à do Aruê. Com o fim do grupo, ela quis dar continuidade ao trabalho de valorização da cultura negra e criou a própria tribo”, como ela mesma chama seus colegas de dança. “Eu era a única do bairro a dançar afro. O fato de ser uma novidade até foi bom, porque despertou curiosidade e as pessoas quiseram fazer parte do Aruê para saber do que se tratava”, relembra.

Com um instrumento de percussão e três integrantes, o Aruê das Gerais iniciou as atividades. Desde então, o trabalho da equipe não se resume a ensaios e apresentações das coreografias. Os componentes do grupo pretendem resgatar a cultura afro, tanto nas atitudes no cotidiano quanto nas roupas do show. Durante as apresentações, o figurino lembra os trajes utilizados pelos antigos escravos, nas danças e rituais do passado. E, no dia a dia, os membros do Aruê procuram priorizar roupas, penteados, cores e culinária que remetem à tradição afro-brasileira. “Trabalhamos toda a questão racial. O objetivo é não deixar nossas origens se perderem. Às vezes, nos reunimos só para preparar pratos que eram feitos por nossos antecedentes negros”, orgulha-se Rosângela.

Carnaval

Além de se apresentar em eventos, escolas e centros comunitários dentro e fora da capital mineira, o Aruê das Gerais também fez história no carnaval de Belo Horizonte.

Em 2004 e 2005, o grupo conquistou o título de campeão, na categoria Bloco Afro. “Em 2004, dançamos afoxé na avenida. Nem fomos à apuração, de tanto medo do resultado. Assistimos ao julgamento em casa. Mas tiramos dez em tudo: bateria, samba-enredo, figurino, coreografia. Foi uma surpresa”, relembra Rosângela.

Em 2006, o grupo também participou do evento, mas não competiu porque não havia blocos concorrentes.

Negritude

Desde o início das atividades, mil e quinhentas pessoas já passaram pelo Aruê das Gerais. Atualmente, 35 são membros fixos.

Rosângela Goulart acredita que tantos anos de luta pela valorização da cultura negra já rendeu frutos valiosos. “Antes, as pessoas da nossa comunidade tinham vergonha de vestir roupas com estampas afro-brasileiras. Hoje, isso não acontece mais. O penteado tipicamente negro também não era valorizado. Agora, a maioria das meninas do nosso grupo trabalha fazendo penteado afro”, conta.

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Curiosidades

 

- Rosângela e o Grupo Aruê das Gerais já participaram de diversos filmes, como Chico Rei, Bandido Antônio Do, Mariana Luz e Sombra.

- Rô Fatawá é o nome que Rosângela adota para ser identificada como militante do movimento negro. “Recebi esse nome há uns 30 anos. Disseram para mim que Fatawá era uma das mulheres de Zumbi dos Palmares”.

- O Aruê das Gerais abriu o show do grupo baiano Ilê Aiyê, em 1995, no bairro São Geraldo. (Foto: Rosângela Goulart, Rô Fatawá ou simplesmente Rô - Crédito: Rafael Barbosa)

Para a fundadora do Aruê das Gerais, os planos do grupo se resumem a continuar na luta para enaltecer as tradições que começaram com nossos antepassados, os escravos. “O negro é lindo. É preciso ter atitude, respeitar a si mesmo. À medida que o negro se aceita, as outras pessoas também o aceitarão”, conclui.

Contato:

Centro Cultural Bairro São Geraldo: (31) 3277-5648
ccsg.fmc@pbh.gov.br

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Além de conseguir mudar um pouco a mentalidade da comunidade na qual está inserida, Rosângela Goulart tem despertado a consciência negra também nas escolas.

Ela conseguiu espaço no mundo da educação, depois que o Aruê das Gerais se apresentou... Clique aqui para ler mais sobre.

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Aruezinho

Além de conseguir mudar um pouco a mentalidade da comunidade na qual está inserida, Rosângela Goulart tem despertado a consciência negra também nas escolas.

Ela conseguiu espaço no mundo da educação, depois que o Aruê das Gerais se apresentou por várias vezes em escolas, sempre para celebrar datas comemorativas referente ao negro: Abolição da Escravatura no Brasil (13 de maio) e Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro). Hoje, ela ministra oficinas de dança afro para crianças e adolescentes. “Atualmente, estou na Escola Municipal Padre Francisco Carvalho Moreira, todos os dias. Trabalho com 60 alunos, de seis a 17 anos, divididos em dois horários”. 

Segundo Rosângela, uma das estratégias para atrair o interesse dos adolescentes para as oficinas de dança afro é se aproximar do universo infanto-juvenil. “Eles são jovens e é preciso acompanhá-los. Por isso, também dançamos outras modalidades, como street dance e dança do ventre. Mas não deixo a dança afro de lado”.

Os frutos do trabalho da fundadora do Aruê das Gerais também já começam a surgir entre os alunos. “Vejo que eles assumem mais seus lugares de afrodescendentes. Também sempre incentivo os alunos a pesquisar sobre o tema na biblioteca da escola. Além disso, os professores me procuram dizendo que o rendimento das crianças, em sala de aula, melhorou muito depois da dança”.

Suellen da Silva, de 10 anos, é uma das integrantes da geração que, provavelmente, vai dar continuidade aos trabalhos do Aruê das Gerais. Ela começou na dança afro aos nove anos, após conhecer o trabalho de Rosângela, na escola. “Essa dança dos escravos é muito bonita. Quero continuar dançando até me tornar adulta para ajudar a Rosângela”, planeja. (Foto: Das oficinas em escolas públicas, nasce o Aruê do futuro - Crédito: Rafael Barbosa)

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