Automóvel Clube: na Afonso Pena, um fragmento da belle époque belo-horizontina

Automóvel Clube de Minas Gerais ou “Britânico” para os mais íntimos (Foto: Divulgação)
Automóvel Clube de Minas Gerais ou “Britânico” para os mais íntimos (Foto: Divulgação)
No início, a intenção era apenas promover a prática do automobilismo em Minas Gerais e criar um espaço para entreter os sócios. O estatuto inicial propunha ações de melhoria da malha rodoviária mineira, a construção de um autódromo, além da realização de festas e eventos. Mas o Automóvel Clube de Minas Gerais se transformou em algo muito maior do que previram os fundadores.

Na primeira metade do século 20, o imponente prédio na avenida Afonso Pena se tornou o ponto de encontro da elite belo-horizontina, sediou os eventos mais luxuosos e concorridos da capital e imortalizou uma época de ouro na cidade.

Hoje, o local funciona quase exclusivamente para sediar encontros, jantares, recepções e eventos promovidos pelos sócios, além de abrigar um restaurante aberto ao público. Para realizar um evento no prédio, é preciso ser sócio ou possuir indicação de um deles. E, para ter uma cota, ainda é necessário passar pela aprovação da diretoria.
A imponência do prédio

O requinte do Automóvel Clube começa pelo próprio imóvel, projetado pelo arquiteto Luis Signorelli e construído pela Carneiro de Rezende & Co. Seguindo o estilo dos palácios europeus, o prédio apresenta linhas sóbrias e um conjunto majestoso.

Na fachada principal, três portas em arco perfeito, com folhas de ferro fundido. O Salão Dourado foi inspirado no Salão de Espelhos do Palácio de Versalhes, em Paris, e decorado por três lustres de cristal da Boêmia, região europeia que pertencia à extinta Tchecoslováquia.  

Outro ambiente carrega imponência até no nome. O Salão Príncipe de Gales passou a se chamar assim após a visita de dois membros da realeza britânica em 1931: Edward 7º, o príncipe de Gales, e o irmão George 6º, que veio a se tornar rei da Inglaterra anos depois. Na ocasião, uma placa de bronze foi inaugurada em homenagem aos visitantes.

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Curiosidades

- Em setembro de 1957, uma festa no Automóvel Clube começou às 22h e terminou ao meio-dia.
- Em apenas um mês, em julho de 1958, foram realizadas 31 festas para jovens e 12 para casais.
- No saguão do prédio, foi instalado o segundo elevador de BH.
- De acordo com uma lenda popular, certa vez, um casal que passava pela Afonso Pena entrou no prédio, fez o sinal da cruz e saiu logo depois. A imponência do Automóvel Clube confundiu a dupla que seguiu seu caminho certa de ter passado por uma igreja.
- “Britânico” é outro nome dado ao prédio.


Os ambientes do Automóvel Clube

1º piso: Hall de entrada e Salão de Música, com piano e tapetes orientais.
2º piso: Salão Dourado, Salão Príncipe de Gales.
3º piso: Salão Verde, Salão Privé e Salão Bridge (construído na década de 90).
4º piso: Sala de Televisão, Sala de Leitura e Salão de Sinuca. Esse pavimento não estava previsto no projeto inicial.

O mobiliário e a pintura de todo o prédio foram feitos pela Casa Laubisch & Hirth. A decoração mistura itens clássicos, inspirados nas culturas inglesa e francesa, com muito espelho, mármore e pisos artísticos.

Para conservar tanto luxo e capricho, o prédio foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artísticode Minas Gerais (IEPHA), em 1998, e pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte, em 1994.

Um pouco de história

Em 17 de dezembro de 1925, nove amigos, conhecidos como o Grupo dos Nove, fundaram a entidade com o nome de Clube Central.

A primeira sede foi instalada no Palacete Dantas, na Praça da Liberdade, em 14 de junho de 1926. Um ano depois, o nome foi alterado para Automóvel Clube de Minas Gerais, filiado ao Automóvel Clube do Brasil. Em 19 de agosto de 1929, a entidade transferiu-se para o prédio atual, na esquina das avenidas Afonso Pena e Álvares Cabral. No dia da inauguração, um baile de gala exigiu até o uso de casaca para os homens.

O Clube reunia apenas os bem-nascidos. Quem quisesse se tornar um sócio precisava carregar o sobrenome de uma tradicional família mineira e, além disso, era necessário passar por uma espécie de júri. O conselho da entidade se reunia com bolas brancas e pretas nas mãos. Colocar a bola negra sobre a mesa era o mesmo que vetar a entrada do aspirante a membro. Mas se todos apresentassem a bola branca, um novo sócio acabava de ser aprovado para entrar no fechado círculo que frequentava as mais luxuosas festas de Belo Horizonte.

Até 1966, a noite de posse do governador mineiro era comemorada em um baile de gala no Automóvel Clube. Políticos brasileiros ilustres, como JK e Tancredo Neves, foram frequentadores assíduos do local.

Hoje, os quatro pavimentos do prédio não vivenciam mais o glamour nem o burburinho social da Belo Horizonte do século passado. O black-tie para os homens não é mais exigência para frequentar as festas. O Salão Dourado não sedia mais os aguardados bailes anuais com meninas recém-formadas na Socila –  escola que dava cursos de etiqueta para as debutantes.

Mesmo assim, o Automóvel Clube continua lá, imponente, encantador, inspirador, em uma das esquinas mais movimentadas do hipercentro de BH. Ainda hoje, apesar da correria urbana, a cidade ainda reverencia essa nobre testemunha da história, ainda muito longe de perder toda a sua majestade.

informações do local
Endereço: Avenida Afonso Pena, 1934
Telefone: 31 3222-5416
Site: http://www.automovelclubemg.com.br
Horário de Funcionamento: Restaurante - 2ª a 6ª das 12h às 16h e das 19h à 0h, sáb. das 12h às 16 e das 19h à 1h.
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