A arte chamada Pampulha

Arte, beleza e lazer em harmonia no ponto turístico mais famoso de Belo Horizonte

Local ideal para passear, sentir a brisa, estar com quem se gosta ou simplesmente desfrutar as coisas belas da vida, a Pampulha é um lugar único, um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte.

A sensação peculiar que a região da Pampulha provoca em seus visitantes é o que fascina a estudante baiana Lorena Lyra, que vive em BH desde 2009. “A Pampulha é diferente de tudo. Uma das melhores coisas é o clima de cidade do interior dentro da cidade grande”. Já a pequena belo-horizontina Isabelle Siqueira, de apenas 10 anos, gosta de aproveitar a região da Lagoa para passear com a família e brincar também. “Gosto do parque e da Lagoa, para andar de bicicleta e patins”.

O espanto

Um ponto destinado ao lazer devido ao seu encanto e às suas belezas, a Lagoa da Pampulha é também um marco para a arte expressada por meio da arquitetura em BH.“A arte tem que ter o espanto” disse Oscar Niemeyer, parafraseando o poeta francês Charles-Pierre Baudelaire, ao se referir a um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte.

No início da década de 40, Belo Horizonte já contava com cerca de 220 mil habitantes e seguia crescendo bem além de seu plano original. Surgem novas ideias e planos diretores que buscavam reorganizar a cidade e permitir sua expansão racional. Nesse período, BH passa por intensa modernização, abrem-se novas avenidas e são realizados grandes investimentos em todos os lados da cidade. Época de novas idéias influenciadas pelo pensamento modernista brasileiro que encontra na capital mineira o espaço ideal para se desenvolver.

Com a beleza e o impacto de seu espelho d´água, de suas curvas, da Casa do Baile, do Cassino, do Iate Clube e da Igreja de São Francisco de Assis com seus painéis de Portinari, o complexo da Pampulha se destaca na paisagem de Belo Horizonte. A criação múltipla de Oscar Niemeyer, Burle Marx e Portinari dá o passo promissor para o futuro quando a capital mineira ainda era uma cidade carente de algo que a firmasse de vez como uma das grandes metrópoles do país.

Entre 1942 e 1944 ocorreram as obras, a pedido de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, com o objetivo de tornar a cidade de vanguarda mundial, além de desenvolver novas áreas mais afastadas do centro da cidade. No projeto encomendado por Juscelino, havia um conjunto de edifícios em torno do lago artificial que seria criado. Em torno da Lagoa haveria um Cassino, uma Igreja, uma Casa de Baile, um Clube e um Hotel. À exceção do hotel, o conjunto se concretizou com a inauguração em maio de 1943.

Talvez a principal obra do complexo da Pampulha, a Igreja São Francisco de Assis, mais conhecida como Igreja da Pampulha seja um local a parte, com bastante originalidade na arquitetura. Emoldurada pelas águas da lagoa, a igrejinha reúne as genialidades do arquiteto Oscar Niemeyer, do paisagista Burle Marx e do pintor Cândido Portinari em suas paredes. Essa combinação gerou a construção em linhas curvas totalmente revestidas por azulejos azuis tais quais os clássicos portugueses e pelos painéis que retratam a Via Sacra e a imagem de São Francisco.

No entanto, a modernidade de suas curvas causou um forte impacto na sociedade à época. As autoridades eclesiásticas não permitiram de imediato a consagração da capela devido à sua forma nada convencional para uma igreja, e ao painel de Portinari, onde se vê um cachorro representando um lobo junto a São Francisco de Assis. Por quase uma década e meia foi proibido o culto na igreja. Seu interior abriga a Via Sacra, constituída por 14 painéis de Cândido Portinari, considerada uma de suas obras mais importantes. No exterior estão belos jardins, assinados por Burle Marx.

Outro edifício importante do Conjunto da Pampulha é o antigo cassino, atual Museu de Arte Moderna, primeiro prédio do conjunto a ser construído. De imediato à sua inauguração, o cassino da Pampulha passou a receber pessoas de todo o país, transformando assim o cenário da noite belo-horizontina. Grandes artistas, renomados no Brasil e no exterior, que já haviam atuado nos Cassinos da Urca no Rio de Janeiro e no Palácio Quitandinha de Petrópolis vieram a Belo Horizonte.

Os tempos de glória do Cassino da Pampulha, porém, duraram pouco. Em abril de 1946, o governo do presidente General Eurico Gaspar Dutra proibiu o jogo em todo o Brasil. Após alguns anos de abandono, o cassino passou a funcionar como museu a partir de 1957. Em seu acervo, o destaque maior são obras da arte contemporânea brasileira. Exposições de artistas renomados como Guingnard, Camile Claudet, Salvador Dalí, Pablo Picasso entre outros, já aconteceram no museu.

Niemeyer conta o que fez com muita rapidez “fiz este projeto em uma noite, não tive alternativa. Mas quando funcionava como cassino, cumpria bem suas finalidades, com seus mármores, suas colunas de aço inoxidável, e a burguesia a se exibir, elegante, pelas suas rampas.”

Na outra margem, o Iate Tênis Clube é uma casa-barco de linhas duras que se lança sobre as água tranquilas da lagoa”, define o arquiteto Niemeyer. Com jardins de Burle Marx e revestido com os mesmos azulejos do Cassino, o Iate se propunha a ser um local de lazer para a família, com ênfase nas atividades esportivas, principalmente as náuticas.

O Conjunto Arquitetônico de Niemeyer exibe ainda a Casa do Baile. Inaugurada em 1943, ela tem uma peculiaridade em relação ao restante do complexo, pois é a única construção que se encontra totalmente sobre uma ilha artificial ligada à orla apenas por uma pequena ponte feita de concreto. Criada para ser espaço de lazer e entretenimento nas noites de BH, a Casa do Baile rapidamente tornou-se palco de atividades musicais e dançantes. Na década de 40, era o lugar onde a alta sociedade se encontrava para grandes bailes e festas. Frequentar o local era, antes de qualquer coisa, um símbolo de status. Com a proibição do jogo que inviabilizou o Cassino, encerrando de vez suas atividades, a antiga Casa do Baile acabou também fechando suas portas em 1948. Desde 2002 quando foi reaberta, a antiga Casa do Baile abriga um centro que discute Urbanismo, Arquitetura e Design, vinculado à Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte.

“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a curva reta, dura, inflexível criada pelo homem, o que me atrai é a curva livre e sensual que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos rios, das ondas do mar, no corpo da mulher preferida, de curvas é feito todo o Universo, o Universo curvo de Eistein”, descreve Niemeyer que assim inaugurou um gesto ousado do novo em projetos arquitetônicos no país. O Conjunto Arquitetônico da Pampulha foi o início de uma nova era da arquitetura não apenas no Brasil como em todo o mundo.

 

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